
Tudo o que vem vai. E nem tudo o que vai volta. Pois é, nenhum bumerangue é à prova de falhas. Você aprenderá a lidar com o desgosto, a aceitar o andar da carruagem, a apaziguar as desavenças internas, a rir da sua própria desgraça. E por fim, Maria, você vai secar as lágrimas, pentear o cabelo, colorir os olhos e a boca, colocar um salto quinze, encher o peito e dizer, com toda a firmeza do mundo: “fiz mesmo, e faria é de novo se tivesse mais! “

Eu sou intensa. Não sei ser de menos, amar um pouquinho ou sentir pela metade. Não consigo guardar palavras nos pensamentos ou fingir ser algo que não sou só para parecer normal. Aqui é alma, corpo e coração. É se jogar no abismo sem o receio de não ter ninguém lá embaixo esperando por mim. Quero tudo muito, agora, anda! Vê se não demora, porque também não gosto de esperar. Aqui é oito ou oito mil. Se for pra ser, que seja demais, intenso, dê frio na barriga. Que seja rápido, repentino, gostoso. Que me jogue na parede, puxe pelo cabelo e me leve para viajar no dia seguinte. Que seja algo surreal, que dê borboletas no estômago e me deixe querendo mais. Que seja faísca, fogo, incêndio. Que seja um amor gritante, insano e completamente, único. Mas se não puder ser tudo isso, que seja um nada. Que vá embora da minha vida antes mesmo de cruzar a soleira da porta. Gosto que me transbordem, e não apenas acrescentem.
Nós que somos intensos temos dois caminhos a seguir: o caminho mais fácil e o caminho mais difícil. O caminho mais fácil é o que escolhi desde o início, o desapego. Se é para ser tudo ou nada, que seja logo o nada. Que seja o desapego, a liberdade, a leveza de ser sozinho. Que seja o aprender do caminhar sem mãos dadas, o equilibrar sem apoio, o sorrir sem motivo. Que seja a valorização do eu, a preservação do coração, a armadura que previne o cupido. Que seja sozinho, mas que seja feliz. Se for pra ter um pouco, que não tenha nada.
Se comigo é tudo ou nada, estou esperando alguém que mereça o meu ”tudo”. Alguém que me ensine a voar, cure o meu medo de altura, me dê as mãos. Alguém que não se importe com meu passado, sare as feridas, remende o coração. Alguém que assim como eu, se protegeu tempo demais, e agora vai se permitir viver - pela primeira vez.
Então não é que eu não acredite no amor. Eu acredito, e muito. E é exatamente por acreditar demais, que eu não posso me permitir vivê-lo assim tão intensamente com qualquer um que ofereça um abraço caloroso.
Um dia, tenho certeza de que o desapego se tornará um grande amor, e assim como tudo na minha vida, vou viver intensamente até o último minuto com um sorriso no rosto e com a certeza de que essa vai ser uma história de tirar o fôlego. E se possível, que o nosso primeiro beijo seja debaixo de chuva.
- Isabela Freitas

Se você quiser eu faço tudo diferente, ou tudo igual - de um jeito melhor. Se você quiser tentar de novo eu prometo que ligo no outro dia e mando mensagens de “ bom dia ” e também acho um tempo na minha agenda lotada só pra perguntar como está sendo ele. Se você quiser recomeçar eu juro que vou naquele bar que eu odeio e você adora. Se você me perdoar eu passo a noite na sua casa vendo filme na cama, como você gosta, e prometo não tomar o seu lençol a noite e deixo você dormir de conchinha a noite toda, se você quiser. Eu deixo você me beijar em publico , porque eu sei como você gosta de se sentir meu. Se você voltar, eu me sinto sua, eu juro.
Quando você chegar eu vou usar aquela camisola velhinha que você tanto gosta e aquele perfume fez você se apaixonar. E a gente vai passar a tarde juntos e eu vou deixar que você segure a minha mão e me apresente para os seus amigos. Eu vou deixar você me olhar com cara de bobo por horas e falar coisas no meu ouvido. Se você quiser voltar, eu prometo cumprir tudo.
Mas se você não quiser eu prometo não me apaixonar mais por você, pelo seu sorriso, pelo seu cheiro. Eu prometo apagar todas nossas conversas e apago da cabeça todo olhar sincero que a gente trocou. Se você não voltar eu juro que não te olho mais com amor, eu prometo não te ver mais. Se você não quer um recomeço eu te prometo não te prometer mais nada.

Por que você não me quer como os outros caras querem? Eu digo isso porque já reparei que os seus olhos se mantém firmes nos meus e não descem pro meu decote. Apesar de saber que você o arrancaria com os olhos se pudesse. E já percebi que você suspira quando eu levanto e enceno um rebolado discreto enquanto ando. Mas o meu cruzar de pernas não te afeta tanto assim. Você não é um moleque desses que descarrega testosterona enquanto perde neurônios e troca a fala interessante pela baba. Você tem um papo que revela um interesse desinteressado e eu fico sem saber qual é a sua. Por que você não faz o que todos os garotos fazem?
Eu te encaro enquanto eles encaram o meu corpo. Meu ego agradece enquanto eles batem palmas e me despem com os olhos. Só que você prende a minha atenção de uma forma estranha. Você finge tão bem que eu poderia sentar no seu colo e mudar o jogo a meu favor. Só que eu acho que eu ganho da mesma forma. Você devia ensinar a eles que pra ser homem é preciso calma. Mesmo que o desejo dê sinal de vida, você precisa disfarçar. Se vocês se entregam de bandeja, a gente pede a conta e vai embora. Porque a gente sabe que é só chamar o garçom e vocês voltam de bandeja sempre que a gente quiser. Você precisa ensinar a eles que a nossa máxima de que “todos os homens são iguais” é apenas um teste. Não precisa ser levada a sério, mas precisa ser contrariada. Porque a gente sabe que vocês podem ser canalhas no final, mas no início o apelo tem de ser diferente. Senão a gente escolhe qualquer um por tempo limitado e depois entra num táxi pra ir embora. Você devia ensinar muita coisa a eles. Mas antes é preciso que você me ensine a ganhar você.
Imagine que o tempo possa congelar agora e todo mundo nesse local congelaria junto. Se eu tirasse a roupa e andasse por aí, eles não poderiam me tocar. Mas homens têm uma ferocidade natural que move os olhos. Eu desfilaria nua e sentiria olhares me rasgando a pele. Menos o seu. O seu me atravessaria de alguma forma e me faria largar o ar sóbrio. Acho que você me embriagaria de um jeito severo se me levasse pra cama. Eu já gostei do seu perfume e ainda nem senti o seu suor. Aposto que você não é doce assim sem as suas defesas sociais. E também não sei bem se posso chamar isso de defesa. Para mim, você ataca com o desinteresse. Toda mulher se sente pessoalmente ofendida se não for desejada pelo homem com quem está sentada à mesa. E sente a curiosidade com o desafio de fazer-se notada. Como é que eu posso mantê-lo salvo de mim a partir de agora?
Já retoquei o batom três vezes e você só ri das coisas que são realmente plausíveis. A bebida é boa e você prometeu cozinhar pra mim sem dia marcado. Só que às vezes eu penso se não seria melhor que você fosse um garoto ao invés de ser um homem. Agora eu já me pergunto se não te falta o tempero do descontrole adolescente ou se a minha maturidade foi pro espaço com a rejeição. Mulher rejeitada possui o pior veneno que um homem pode provar. Se você não me quiser agora, eu me apaixono. Acho que você deveria ensinar a eles todos como conquistar uma mulher. Porque a gente não gosta de desprezo, mas o desinteresse forjado causa arrepios. É como se você pisasse de salto agulha no meu orgulho. E eu gosto desse masoquismo romântico. No fundo, toda mulher gosta. Até que os seus olhos baixaram em direção às minhas pernas. Que decepção. Você me quer exatamente como os outros caras querem. Só que escolheu as coxas ao invés dos peitos. E você quase me ganhou. Mas pode passar a mão discretamente por cima delas e me convidar para a sua casa. Pode deixar que eu não bato a porta na hora de ir embora amanhã de manhã.

Eu arranho as cordas vocais de um jeito desafinado só pra te irritar. Eu canto sobre a gente num karaokê em algum lugar da Augusta e brindo a você num copo pequeno daqueles de bar. Eu deixo de esconder a minha timidez por trás das lentes grandes dos meus óculos e deixo tudo ficar embaçado só pra sentir a sua respiração mais de perto. Eu tiro esse aviso bem grande de “por favor, me ignore” de frente da minha camiseta – e eu só uso isso por medo de tropeçar ou gaguejar caso você resolva vir falar comigo qualquer dia desses. Pra você gostar de mim eu imito Cazuza e crio uma ideologia pra gente viver a dois. Que solidão que nada. Eu quero é que um dia desses nasça logo pra gente ser feliz.
Pra você gostar de mim eu confundo o tempo. Faço o nublado virar chuvoso e uso a desculpa pra te aquecer. Ligo o ar-condicionado no máximo e digo que não tem cobertor, mas tem pipoca, um filme qualquer e eu pra te fazer companhia. Eu deixo você me usar como segunda pele, que é pra eu te sentir mais minha. Ah, e brinco de gangorra com você lá no alto. Prometo ser legal e não te deixar suspensa por muito tempo. Que é pra te tirar de evidência quando as suas bochechas corarem e você já não quiser mais brincar. Compro chocolate belga e te sujo toda de brigadeiro de panela pra gente rir junto depois. Pra você gostar de mim eu paro até de combinar vermelho e verde pra dar alguma tranquilidade no nosso tom.Eu apronto uma serenata, uma passeata ou alguma forma nada discreta de me declarar. Monto palco, estudo cena após cena e dispenso o curso pra me mostrar pra você. Sinto e o que eu sinto não precisa de interpretação – nem minha, nem das palavras que eu jogo por aqui e por ali. Vomito espontaneidade porque duvido que alguém goste tanto de você assim, exageradamente verdadeiro como eu. Se achar nojenta demais a metáfora, eu não retiro o que disse. Mas pego um pano pra limpar as bordas, os excessos e deixo com você só o que você for capaz de carregar. Eu aguento a carga por mim e por você, desde que você não considere um fardo durante o tempo. Desde que você fique porque gostou do que viu e porque sentiu no peito aquela angústia chata que pede pra ficar, e fica martelando sem parar na cabeça. Eu mostro que a gente não foi feito um pro outro – e por isso mesmo é que eu antecipo a fala pra te acalmar. Eu prometo que vai ficar tudo bem – na maioria das vezes. Pra você gostar de mim eu dispenso o felizes para sempre e tento fazer com você o felizes por agora.
Pra você gostar de mim eu tiro a máscara. Me desnudo sem pudores na sua frente. Me mostro cru e com todos os defeitos do mundo que podem ser encontrados em alguém. Deixo você me conhecer melhor e nem precisa fazer tempo de experiência. Pulo as primeiras impressões e jogo com as segundas, as terças, quartas e assim por diante. Estendo a semana e estendo também as minhas desculpas pelo exagero da declaração. Eu te deixo ver meu lado mais sensível. Meu lado menos ogro e mais doce. Pra conquistar os sorrisos que você me der e permitir que você entenda que homem também chora e só chora se tiver um colo de mulher pra descansar a cabeça nos dias difíceis. Compenso a falta de alguma coisa com mais atenção e com mais carinho. Pra você gostar de mim eu mostro que caras como eu existem aos montes por aí e você só não vê direito porque tá com pressa ou porque não olha além das calças meio largas demais ou do cabelo bagunçado deles. Alguns mais tímidos que outros, outros mais enrolados que alguns poucos. E pra você ficar por mim eu escrevo essa carta. Mal pontuada e meio atrapalhada. Que é pra você já entender o meu jeito e os meus modos desavisados. Que é pra te dar algum motivo pra ficar comigo – caso eu consiga roubar algum riso abafado ou sorriso de lado antes de chegar ao ponto final.
- Daniel Bovolento
Ah, se você conhecesse um pouco sobre ela, você teria a certeza de que ela transborda. Ela tem um efeito catártico, daqueles que pisam nas poças d’água sem ligar pras barras das calças. Ela não liga pras canelas molhadas e nem pro estardalhaço que a água faz. Corre, corre e corre tanto que nem respeita os sinais, e a gente tem certeza de que você também não os respeitaria se a conhecesse.

Porque eu vou ter mais medo de dar de cara contigo – se o olhar for sincero – do que de cair de alguma altura qualquer.
Me diz o teu signo que eu vejo se a gente combina ou não. Vai ser papo pro primeiro encontro e pra primeira discussão. Na banca de jornais, um aviso sobre mim no seu horóscopo: ele é de lua, moça. Cuidado com a natureza contraditória do sentimento dele. Ele diz que quer ir embora enquanto grita com os olhos que ficaria por você. Mas tem um medo danado de admitir isso pra si mesmo. Rei da autossabotagem, moça. É bonito pra literatura e preocupante pra encontros marcados com datas regulares em dias úteis. Ele é de lua e vai inventar um monte de motivos pra cada fase dele – e pra não ter que encarar que gosta mesmo de você. Vai reinventar os Astros pra justificar que não era pra ser.
Talvez não desse pra ser mesmo.
Talvez fosse destino.
Talvez eu só seja de lua. E não queira admitir o meu pavor em me ver feliz com você. Numa rua movimentada. Cobrindo o rosto com as mãos pra espantar o rubor. Querendo congelar aquele momento pra viver nele pra sempre. Ignorando todo e qualquer defeito – real ou inventado – que se projetasse na minha frente…
- Daniel Bovolento
” Desistir? Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério. É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça. “